Resenha - Fios de Prata

“Tu inspiraste Rowling e foi nas terras de Morpheus que se moldou Hogwarts. Tu inspiraste Tolkien, e foi nas terras de Phantasos que se anexaram as extensões da Terra-Média. Tu inspiraste Lovecraft, e em minhas terras se fixou Miskatonic. Então eu te pergunto com sinceridade, Anjo: até onde vai tua vontade de ser coadjuvante em um mundo de formas e pensamentos?”
Mesmo já tendo sido cativado pela escrita de Raphael Draccon não pude deixar de me surpreender e passar a admirar ainda mais o autor após ler Fios de Prata. A forma como Draccon conduz sua narrativa, misturando o real com o fantástico de maneira extremamente crível, fez com que eu ficasse completamente imerso nas 350 páginas desta obra, como em um sonho do qual eu não queria acordar.

Logo nas primeiras páginas somos apresentados a Allejo, um jogador de futebol que mesmo com pouca idade já conseguiu chegar ao topo do mundo. Dinheiro, mulheres, fama, tudo parece estar ao alcance dele, com apenas uma exceção: uma boa noite de sono. Há meses, terríveis e vívidos pesadelos atormentar o jogador que mesmo já tenho procurado todo tipo de ajuda médica não consegue se livrar deles.

O que Allejo não imagina é que sua alma fora escolhida como a principal peça de um quebra-cabeça envolvendo uma disputa onírica entre os três deuses do Sonhar: Morpheus, Phantasos e Phobetor. E pior, que sua amada, Ariana, é inserida no meio disso tudo por sua culpa, o que faz com que ele seja obrigado a cumprir uma promessa feita a ela.
“Por você eu iria até o inferno, Ariana.”
Existem promessas que não deveriam ser feitas.
E é em meio a essa guerra que somos apresentados e logo nos encantamos pelos reinos do Sonhar. E é ai que Draccon acerta em cheio, pois Fios de Prata funciona como uma ode não só a literatura fantástica, mas também aos autores que mudaram sua vida, como ele próprio afirma. Durante a leitura encontramos inúmeras referências a autores e obras fantásticas – além de elementos a cultura pop, como em Dragões de Éter – que tornam a experiência de ler Fios de Prata ainda mais apaixonante.
Outro ponto chave da narrativa é o romance entre Allejo e Ariana. Ambos os personagens são extremamente cativantes e parecem completar um ao outro de maneira única. Um amor que definitivamente faria qualquer homem ir até o inferno por sua amada, caso fosse necessário.
Interessante também é observar as consequências que essa guerra traz para Terra. Sete bilhões de sonhadores, mesmo que de forma inconsciente, estão envolvidos nela e muitos são afetados, de maneiras negativas ou positivas. Pessoas que poderiam ter futuros fantásticos se conformam com uma vida medíocre, milhões de sonhadores são acordados bruscamente durante a noite e não conseguem mais voltar a dormir, milhares de almas são danificadas.
Também não poderia deixar de destacar aqui a forma como o autor conseguiu me emocionar em diversos momentos da narrativa. É difícil explicar a forma como isso aconteceu, pois esses momentos são tão simples e bonitos que não é possível reproduzi-los aqui de forma que faça jus a eles. Só lendo para saber - e sentir.

“Na cidade de São Paulo, uma empresa do ramo de construções organizara uma ida de crianças carentes ao cinema. A maioria nunca havia visto uma projeção na tela grande. O filme escolhido fora o anime A Viagem de Chihiro, do japonês Hayao Miyazaki. E levando em consideração o filme escolhido, é possível apenas imaginar o que significara aquelas duas horas e cindo minutos para um grupo formado de crianças abandonadas pelos pais e portadoras de HIV, que – como todas as crianças – mereciam sonhar.”
Inicialmente, acredito que pelo fato de não estar familiarizado com a mitologia presente na trama, demorei um pouco a me situar na leitura, o que pode vir a incomodar alguns caso aconteça o mesmo. Mas a verdade é que isso não se torna um problema devido à qualidade do texto e a boa introdução do autor.
Desde a primeira página de Fios de Prata fui imerso em um mundo que eu já conhecia, mas por uma nova perspectiva que me deixou completamente maravilhado. Uma narrativa repleta de guerras épicas, seres malignos, romances, esperança e sonhos. Principalmente sonhos. Não percam está incrível e maravilhosa oportunidade e se deixam vagar pelos reinos do Sonhar.

You may say I’m a dreamer,
But I’m not the only one…
I  hope some day you’ll join us,
And the world will live as one
(John Lennon)

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