Resenha - A Máquina

“Nada podia ser mais afastado um negócio do outro do que Nordestina do mundo.
Juntar os dois era serviço mais difícil do que dissolver a terra interira no mar, misturando bem misturadinho, na importando nem o tamanho da colher de pau nem a habilidade da criatura que se prestasse a executar tarefa tão ingrata.”
A Máquina é o tipo de livro que, mesmo não sendo uma obra prima, acaba se tornando inesquecível. Adriana Falcão consegue brincar com as palavras, fazendo com que o leitor logo se veja totalmente imerso na história de amor de Antônio e Karina, que é capaz de parar até mesmo o tempo. Mas não pensem que isso é grande coisa não, afinal, o próprio Antônio era amigo íntimo do tempo.

Nordestina é uma cidadezinha desse tamanhinho assim da qual se dizia: eita lugarzinho sem futuro, longe que só a gota. E é lá que mora Antônio de Dona Nazaré, o herói dessa história, que era completamente apaixonado por Karina. Karina, por sua vez, também era apaixonada por Antônio, mas com um porém, Karina também era apaixonada pelo mundo, sendo que Nordestina não parecei fazer parte do mundo, então ela, como muitos outros, queriam ir embora de Nordestina para poder ir para o mundo.

Para você entender melhor, só existiam três tipos de pessoas em Nordestina: as que iam embora, as que queriam ir embora e Antônio, que queria ficar por lá mesmo. Karina, que fazia parte do segundo grupo, finalmente decidiu que iria para o primeiro, indo embora de Nordestina, mesmo sem ser totalmente do seu querer deixar Antônio.
“É claro que não queria ir embora, se pudesse mandar no seu querer, se fosse possível desenhar o mapa do mundo todinho de novo, se pudesse inventar outra geografia, outra sociologia, outra filosofia, outra economia, como Karina falou bonito naquele dia.”
Entretanto, quem acaba indo embora é Antônio, mas prometendo voltar, pois, se Karina queria o mundo, Antônio ia dar o mundo para Karina. E assim Antônio partiu, com a promessa de voltar trazendo o mundo para Nordestina. “É o mundo que você quer? Então eu trago ele para você.”

A Máquina é uma leitura de uma tarde, um livro pequeno, mas cheio de significado. Com uma linguagem simples, lembrando o cordel, ele funciona não só como forma de entretenimento, mas também possui cunho social, principalmente para época do seu lançamento, ao falar sobre a necessidade daqueles que moram no Nordeste e que desejam seguir uma carreira ligada ao teatro, cinema ou televisão, como a própria Karina, serem obrigados a migrar para o Sul do país.

Mas, mesmo sendo um livro magnífico, que consegue encantar o leitor da primeira a última página, não poderia dizer que minha experiência com a obra teria sido completa se não tivesse assistido ao filme de João Falcão, que consegue de maneira sensacional enriquecer a obra de Adriana Falcão. Novos personagens e situações são acrescentados no filme, tornando ainda mais prazerosa a experiência de conhecer essa história de amor que, como diria Antônio, é bonita que só a gota.
“E este livro virou filme, e o que era palavra virou imagem, e o que era narrativa virou ação, e o que era emoção se viu registrada na tela.
Vai ver Antônio e Karina achavam que o amor deles era coisa de cinema, por isso exigiram um filme. E quem ia deixar de atender a um pedido romântico desses?”

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