Resenha - O Temor do Sábio

“Lembre-se de que há três coisas que todo sábio teme: o mar na tormenta, uma noite sem luar e a ira de um homem gentil.”
Quando lemos o primeiro livro de uma série e o achamos muito bom é comum ficarmos um pouco receosos quanto à continuação dessa série. Temos medo que o autor acabe “errando na mão” e diminua a qualidade da saga que começamos a prezar tanto. Eu próprio poderia citar algumas séries em que isso já me aconteceu. Talvez a culpa também recaia um pouco sobre mim, talvez tenha elevado de mais minhas expectativas. Mas não podemos negar, quando isso acontece, seja qual for o motivo, é decepcionante para o leitor.

Quem leu minha resenha de O Nome do Vento sabe como amei o livro. Quando se fala em literatura fantástica ele entra facilmente no meu “Top 5”, e por isso meu receio quanto a qualidade da continuação deveria ter sido enorme, mas como eu disse, deveria, pois esse receio nunca chegou nem mesmo a existir.

Desde que li o primeiro livro da série A Crônica do Matador do Rei tive a certeza de que Patrick Rothfuss, além de saber exatamente o que estava fazendo, viria a se tornar um gênio da literatura fantástica devido, principalmente, ao fato de próprio autor ser um amante dela. Patrick escreve com paixão, paixão essa que pode ser vista nas 960 páginas de O Temor do Sábio.

No segundo livro da série Kvothe, o Arcano, o Sem-Sangue, o Matador do Rei continua a contar sua jornada ao Cronista, e nesse volume temos uma visualização ainda mais interessante e encantadora sobre o mundo criado por Rothfuss, já que boa parte do livro se passa longe da Universidade. Também temos a oportunidade de conhecer melhor muitos personagens, que apesar de serem importantes para trama do primeiro livro, não possuíam tanto espaço, como Wil, Simmon, Denna, Devi, Feila e para minha completa alegria Auri, por quem admito ser completamente apaixonado.

Nesse volume descobrimos o desenrolar de uma das estórias vividas por Kvothe que eu aguardava com mais ansiedade desde que li a sinopse de O Nome do Vento: O encontro de Kvothe com Feluriana, uma criatura encantadora à qual nenhum homem jamais pode resistir ou sobreviver. E mais uma vez Patrick impressiona. Em muitos dos momentos dessa passagem em particular do livro o texto parece se confundir com poesia, o que torna toda a passagem tão bela quando a própria Feluriana.
"E nisso há também música. Os gritos sem palavras que ela emite, mais alto, mais baixo. Seus suspiros. Meu coração disparado. Seu movimento diminui. Agarro-a pelos quadris num contraponto frenético. Nosso ritmo é uma canção silenciosa. Como um trovão repentino. Como o bater entreouvido de um tambor distante...
E tudo para. Tudo em mim se arqueia. Reteso-me como uma corda de alaúde. Trêmulo. Doído. A afinação é aguda demais, eu arrebento..."
E como não poderia deixar de ser a busca de Kvothe pelo Chandriano também continua, apesar de cada vez mais parecer impossível obter informações sobre o grupo.

Mais uma vez fico impressionado com a beleza que possuem os livros de Patrick Rothfuss. Tudo é feito de forma primorosa e, como não poderiam deixar de ser, deixa o leitor completamente encantado com os lugares e personagens apresentados, mas, principalmente, com as músicas e histórias cantadas e contadas durante o livro.

O livro é enorme e se torna um pouco parado em determinados pontos, mas os momentos de grandeza são tantos que isso é deixando em segundo plano, e ao final da leitura você estará sedento por mais, mesmo sendo um livro tão longo. Creio que o principal motivo dessa narrativa ter se tornado tão atrativa para mim e o fato de já sabermos muitas das estórias vividas por Kvothe desde o início da leitura. É interessante observar o desenrolar de fatos que levaram a tal acontecimento, como por exemplo o já citado encontro de Kvothe com Feluriana. Grande parte desse mérito também cai nos ombros do herói pouco convencional que temos como personagem principal.

A edição brasileira, assim como acontece no primeiro volume, é uma das mais belas do mundo. A Editora Arqueiro manteve o estilo de diagramação de O Nome do Vento, com páginas amareladas, letras pequenas e pequenos detalhem que caem muito bem com a estória. A única mudança encontrada é a divisão de capítulos, que agora não possuem mais a separação de uma folha, devido ao tamanho deste volume.

Em suma, o segundo volume da saga do Matador do Rei é tão bom quando seu predecessor, porém um pouco mais cansativo também. Nele o mundo criado por Rothfuss se abre ainda mais, e é impossível não se encantar por toda beleza e filosofia existente no livro que vai de seu título até um já conhecido silêncio em três partes.

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